quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Falta tempo para pensar...

Mario Sergio Cortella - conhecido professor da PUC-SP, escritor e palestrante - costuma dizer em suas palestras que "o prático nem sempre é o certo". Denuncia aí a existência de um erro muito difundido na atual sociedade em que vivemos: a crença na idéia de que tudo o que é prático, por conseqüência, é necessariamente bom (ou de que a praticidade é justificativa para tudo). Essa concepção resulta diretamente do apressado ritmo de vida que hoje levamos nas grandes cidades. Trabalho, escola, curso de inglês, academia, contas para pagar, engarrafamentos etc. Em meio à toda essa existência corrida, quase não encontramos tempo para pensar sobre nossas próprias ações. Assim, substituímos o certo pelo prático - isto é, passamos a justificar algumas ações, muitas inclusive duvidosas no campo da ética, por sua praticidade. É muito mais prático entregar um trabalho de faculdade plagiado da internet do que realmente fazê-lo. É muito mais prático ler, para uma prova de Literatura na escola, um resumo de Macunaíma, do que encarar a obra na íntegra. É muito mais prático furar uma fila. É muito mais prático votar no político "mais simpático" do que procurar conhecer profundamente a história e as idéias de todos os candidatos de uma eleição. A era da velocidade têm nos tornado pessoas que usam o tempo - ou melhor, a falta dele - como desculpa para uma vida irrefletida, em que o urgente sempre acaba por tomar o lugar do importante. Mas será que, assim como dizia Sócrates (filósofo da Grécia antiga), "uma vida não refletida não merece ser vivida"?

Escravos do relógio. O surgimento do relógio mecânico simboliza o início da era moderna. Ele era a perfeita metáfora para o espírito mecanicista do século XVII. Os homens desta época ficaram maravilhados com tal invenção; tínhamos agora uma máquina, forjada num conjunto de peças, capaz de contar o tempo - criação humana. Isso levou pensadores da época, entre eles o filósofo francês René Descartes (imagem), considerado o pai da filosofia moderna, a pensar o próprio corpo humano como uma máquina. Nossos órgãos corresponderiam às peças do relógio mecânico. Tal argumentação pode ser encontrada na quinta parte do seu Discurso do Método. Descartes, como dualista que foi, concebia uma distinção entre corpo e alma (ou mente). O corpo seria justamente a nossa parte mecânica. A alma - ou a racionalidade - representaria a nossa parte autônoma, livre, capaz de operar independemente do corpo. Nas palavras do próprio filósofo, "não há nada que dominemos inteiramente a não ser nossos pensamentos". Descartes via uma superioridade da alma em relação ao corpo; se o homem, alma e corpo, foi capaz de criar o relógio, um "corpo" mecânico sem alma, não poder-se-ia concluir que o homem também fora criado por um ser em nível de perfeição superior ao da criatura? Por um ser como Deus, não portador de corpo e, conseqüentemente, isento de suas imperfeições? Especulações da filosofia cartesiana; encontramos pouco tempo para alimentarmos nossas almas com tais reflexões "vãs". Hoje, de certa maneira, nos tornamos máquinas submetidas ao relógio. Estamos, na balbúrdia da contemporaneidade, perdendo justamente aquilo que, segundo Descartes, nos faz seres humanos: nossa capacidade de pensar. O homem criou o relógio-máquina que, por sua vez, recriou o homem à sua imagem e semelhança, preso numa rota circular, tal como seus ponteiros. Somos, agora, escravos do relógio, da falta de tempo. Fica, como uma contraposição à esta lógica, a pertinente advertência do já falecido escritor brasileiro Caio Fernando Abreu: "... o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato". O problema é que têm nos faltado justamente a atenção.

Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

5 Comentários:

Às 16 de Janeiro de 2009 8:15 , Anonymous Anônimo disse...

Adorei o texto!

Adimiro sua competência em expressar em palavras uma realidade tão clara que ofusca que e vivencia...

Grata

 
Às 21 de Janeiro de 2009 15:55 , Blogger dalailam disse...

Estão todos a mil por hora,sempre correndo ,atropelando,se atropelando,sempre com uma urgência que parece não ter limite.Em nome da família,trabalham quatorze horas por dia e ainda morrem de orgulho disso,embora não acompanhem o crescimento do filho,os primeiros passos,as primeiras palavras,o primeiro dente. Ah meu Deus, isso não tem dinheiro que pague.Domenico de Masi em sua obra O Ócio Criativo nos alerta para o equilíbrio entre trabalho, estudo e lazer. Sendo o ideal a mistura dos três, onde não se sabe onde é trabalho,estudo ou lazer.

 
Às 24 de Janeiro de 2009 17:27 , Anonymous Anônimo disse...

"o" certo? o bom? vixe... será???
acho que nossa capacidade de pensar e refletir sobre as coisas está para além de determinarmos, em absoluto, o que é "melhor", o que é certo, o que é bom... não?

 
Às 25 de Janeiro de 2009 10:23 , Anonymous Rafael Issa disse...

Dalailam,

Eu adoro O Ócio Criativo, já li umas 4 vezes hehe!

==//==

Anônimo 2,

Não sei exatamente qual é a sua filosofia de vida, mas eu pessoalmente não sou relativista. Assim sendo, meu texto lida sim com a tese de que existem coisas certas e coisas erradas. Mesmo admitindo que para um determinado dilema podem existir diversas soluções igualmente éticas e aceitáveis, ainda sim não pretendo aqui refutar nietzschianamente a idéia de que existem "caminhos errados". Se eu não pensasse dessa maneira nem valeria a pena ter um blog e emitir opiniões, não?

Mas o problema-chave do meu post não é esse. O problema central é que, independentemente do que venham a ser esses "caminhos melhores e bons", nós - imersos no mito não-declarado de que tudo isso se encontra automaticamente no prático - nem paramos (pelo assim acontece com boa parte das pessoas) para pensar sobre tais questões.

 
Às 30 de Janeiro de 2009 14:59 , Anonymous Anônimo disse...

A sociedade atual, movida pela falta de tempo, deixa passar as pequenas coisas do dia-a-dia e esquecem que a diferença está nos detalhes com que percebemos e vivemos a vida.
A alienação movida pela mecanicidade prevalece.e

Ass: Yellow

 

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