quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Medo ou liberdade?

Domingo de manhã. Assisto uma 'sitcom' norteamericana na TV. A protagonista da série quer apresentar seu namorado a seus pais. Ele é um ferrenho ambientalista vegetariano, o pai dela, dono de uma granja frigorífica. Antes mesmo que o jantar comece, tem-se um desentendimento entre os dois e o namorado vai embora. Por achar que foi injusta com seu pai, já que defendeu o namorado (detalhe: ela não é vegetariana, nem ambientalista), ela vai conhecer a granja para saber o que o pai faz. Ela fica horrorizada com o que vê, mas o pai acreditando que ela gostou do negócio de família resolve passá-lo para ela. Ela não quer e após uma briga com seu pai, diz graciosamente: "Eu não posso assumir a granja, não porque eu desaprovo o seu trabalho, mas simplesmente porque eu não conseguiria fazer o que você faz. E é bom que você faça, então, sabe... Nós, comedores de hambúrgueres de frango, não precisamos saber o que realmente acontece. É bom que tenhamos alguém que nos proteja de saber e é ainda melhor que seja você. Porque você é meu pai e é isso o que os pais devem fazer... nos proteger". O episódio acaba com uma linda reconciliação entre a família, a moça e o namorado da moça, que desta vez conversam animadamente à mesa.

Ok! A verdade é que a grande maioria dos seriados norteamericanos são uma porcaria. Não vou nem falar da abordagem extremamente superficial do tema e das atitudes covardes e hipócritas da protagonista, que é, afinal, apenas mais uma moça de 'bom coração', que quer somente que seus pais aprovem seu namorado e sejam capazes de sentar juntos, sorrir e contar piadas. Principalmente, ela quer poder dormir tranquilamente à noite, beijar seu namorado, se dar bem com seus pais, sair com as amigas para um drink. Não quer ser posta no meio de um conflito, não quer ter que pensar seriamente no assunto, não quer ter que fazer escolhas, se comprometer, compreender, não, não, nada disso. Apenas conciliar. Ela está feliz com seu pai protetor, seu namorado ecologicamente correto, suas amigas peruas, seu sono tranquilo e, como nos alerta Camus, "Não se deve impedir a boa gente de dormir. Seria preciso mau gosto e o gosto consiste em não insistir, todos sabem disso". Portanto, deixemos a moça em paz.

No livro VII d'A República, Platão desenvolve o famoso mito da caverna: imagina homens acorrentados numa morada subterrânea que não podem mexer-se, nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; atrás deles, em uma colina, há uma fogueira, que projeta sombras na parede à sua frente e vendo apenas sombras, eles as tomam por objetos reais. Se um desses prisioneiros for liberto, ele irá, inicialmente, sofrer, não está acostumado a se movimentar, a caminhar, a olhar para luz, não conhece senão sombras, o próprio atordoamento o impedirá de distinguir as coisas a seu redor e, por fim, se o arrastarem para fora da caverna até a luz do Sol, ele irá sofrer intensamente, seus olhos não estão habituados a tamanha luz e claridade e provavelmente não poderá ver nem as sombras que habitavam seu mundo. Isso parecerá a ele uma verdadeira violência... até que, com o tempo, ele comece a se acostumar com a nova 'existência'. Então, uma vez que passar a enxergar e aperceber melhor os reflexos, os objetos, o próprio Sol, ficará realmente agradecido, sua morada anterior parecerá lamentosa e ele não vai querer outra vida. Mas eis que seus companheiros de 'cela' permanecem lá e o ex-prisioneiro deve voltar para libertá-los...

Essa alegoria da existência humana já foi retomada e retrabalhada diversas vezes, sob diversos prismas, ao longo dos séculos, e a idéia da cegueira dos homens, da necessidade de algo que os desperte do torpor em que se encontram é um pensamento que persiste. No livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, os habitantes de uma cidade vão perdendo a visão um por um, até que todos estejam condenados pela epidemia. Assistimos, então, a uma decadência, um rebaixamento total dos valores, da decência, da mais básica civilidade humana; em meio a esse cenário, uma mulher ainda preserva a sua visão. Sinal de esperança? Sua visão é antes uma maldição que a torna testemunha, tal como o leitor, da devastação em que se encontram os homens, além disso a coloca como uma espécie de guia, responsável pela sobrevivência e cuidado de seu grupo. Aqui não podemos falar em essência, tal como em Platão, em busca da natureza, da verdade, da elevação, do bem, estamos na essência da vida, reduzidos à condição animal de luta pela sobrevivência e manutenção da vida. O prognóstico é pessimista, não se trata mais de elevar a condição humana às suas mais altas esferas, nada do super-homem de Nietzsche, mas antes de contemplar a humanidade em toda a sua indecência e baixeza.




"O que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem
do que eu precisar para dormir tranquila, e que os outros furtivamente
fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer."
(Clarice Lispector - Mineirinho)



Na época atual as grandes opções ideológicas quase não tomam parte na vida e mentalidade da maioria das pessoas, que não sentem a necessidade de contestar verdadeiramente o cenário político, ecônomico, cultural, o que seja. As preocupações voltam-se cada vez mais a se concentrar nas realizações pessoais de cada um, conseguir um bom emprego, comprar um carrinho, namorar, casar, em um caminho que acredita-se que leva à estabilidade e felicidade. Voltamo-nos a uma vida inteiramente privada, que não tem desdobramentos para fora e assim, perdemos não só a possibilidade de participar e realizar algo que tenha importância e permanência para o mundo, como passamos a perder a própria noção de um bem comum, de interesses comuns que vão além de nosso próprio umbigo.

Será que, um dia, seremos capazes de nos libertar das correntes que nos prendem a nosso mundo de sombras e aparências? Não falo nem em liberdade plena, em elevação da alma, mas, ao menos, poder contemplar, ou ainda, falar de coisas como o bem, a justiça, a verdade, sem ser ridicularizado, condenado e crucificado em praça pública? Ou, à exemplo da protagonista da série, permaneceremos eternamente em nosso mundinho privado, com nossos amigos, namorados, piadas e nosso sono tranquilo, com uma porta com cada vez mais trancas?


Juliana Brandão Lanfranchi é estudante de Letras.

8 Comentários:

Às 30 de Janeiro de 2009 15:10 , Anonymous Anônimo disse...

Juliana,

Acredito que a libertação é interna, todos nascemos livres.
Basta cada um de nós ter a coragem de ser o que é, independente do que o "mundo" ache, e sem esperar nada por isso.

Ass: Yellow

 
Às 30 de Janeiro de 2009 18:07 , Blogger Rafael Issa disse...

Yellow,

Seja bem-vindo e obrigado pela sua participação! É sempre bom debater. Eu pessoalmente não diria que "todos nascemos livres"... todos nós nascemos numa dada época, num dado lugar, numa sociedade já instituída, com regras que precedem a chegada do indivíduo no mundo, e numa dada situação familiar e social (muitas pessoas, inclusive, em situações sociais muito adversas). Uma pessoa não nasce totalmente livre porque ela não escolhe nascer numa favela. Nós já nascemos em situações que nos impulsionam mais para um lado do que para o outro. E aí, como diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset, "eu sou eu e minhas circunstâncias". Eu não diria, portanto, que nascemos livres, mas sim que temos um potencial para a liberdade, isto é, para uma construção dela.

Felizmente esses condicionamentos que aqui apontei não são infalíveis, irregováveis; o ser humano pode assim construir sua liberdade. Sartre, filósofo francês, disse que "não importa o que fizeram de mim, importa o que eu faço com o que fizeram de mim". Note que na frase ele não nega que "alguma coisa é feita de mim", isto é, que algo me condiciona; por outro lado ele aponta a chance de "algo ser feito com o que fizeram de mim". Quando você diz "Basta cada um de nós ter a coragem", vejo um problema com a palavra "basta", porque ela dá a impressão de que isso se trata de uma coisa muito fácil. Não é bem assim. Estamos inseridos em uma sociedade com valores específicos, e essa sociedade nos lança à todo momento em situações que podam nossa liberdade. Temos toda uma propensão para o consumismo, para uma visão rotulada das coisas, para as idéias estereotipadas. Não é fácil perceber tudo isso, não é fácil constatar que idéias são verdadeiramente frutos e conquistas de nossa liberdade e que idéias são, na verdade, condicionamentos "do meio". Muitas vezes nos enganamos ao considerar um pensamento "fruto de nossa liberdade". Nietzsche, filósofo alemão, disse "transforma-te em quem tu és". Percebe a palavra "transformar"? Em outra palavras: nós não nascemos livres, mas vamos nos tornando o que somos.

"Ser o que se é" não é algo tão simples, não é algo que se alcança por uma tomada de decisão do tipo "de agora em diante vou ser o que sou". Muitas pessoas acreditam "estar sendo o que são" sem o sê-lo. Ao meu ver é só por uma percepção profunda dos condicionamentos existentes ao nosso redor que poderemos construir nossas liberdades. Se não uma "vivência em sociedade totalmente livre" (o que é impossível), ao menos uma existência mental livre e autêntica. Isso exige reflexão e também superação do medo de se colocar na contra-maré dos condicionamentos.

Abraço,
Rafael

 
Às 31 de Janeiro de 2009 15:40 , Anonymous Anônimo disse...

Olá Rafael,
Grata pela sua resposta reflexiva ao meu ponto de vista e pela receptividade!!!
Concordo em muitos pontos e entendo a sua preocupação em expor o quanto é complexo o processo de libertação.
Acredito sim que "todos nascemos livres" pois todos nós, independente de qualquer situação social ou qualquer outro fator externo, possuímos dentro de nós a "força" (que eu coloquei como "coragem") para superar qualquer oposição exterior.
Na minha opinião os maiores bloqueios que "estagnizam" e manipulam os seres humanos são internos (pensamentos e sentimentos que os impedem de agir e serem quem são).
Concordo que não é fácil e nem simples... digo que "basta ter coragem", pq acredito que esta (a coragem) é uma grande virtude, talvez a maior na minha opinião, e muito rara. Quando digo, "basta ter coragem" é por que ter CORAGEM já é algo muuuito difícil! Entende?
Resumindo, na minha opinião, a "libertação interna" significa a integração entre pensamento, sentimento e ação em outras palavras o que vc diz com "reflexão", "superação do medo" e "se colocar". Que para mim só são possíveis através de trabalhos internos!

Abraços,

Yellow

 
Às 1 de Fevereiro de 2009 8:25 , Blogger Juliana disse...

Yellow,
antes de tudo gostaria de agradecer pelo interesse e pela disponibilidade de levar o debate adiante.
Concordo com você quando você diz que a libertação só é possível através de um processo interno, por pior ou melhor que seja o contexto externo, é só através de um encaminhamento, decisão e força pessoais que o sujeito inicia esse processo. Mas veja bem... inicia.
Pois a verdade é que nós, seres humanos, vivemos juntos em uma realidade criada e construída pelos homens, realidade esta que nos impõe condições de existência. Hannah Arendt diz que independente do que façam os homens sempre serão seres condicionados, pelo simples fato de que "Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante" .
Você nasce em um mundo no qual os homens criaram hospitais para que você pudesse nascer, no qual os homens criaram o conceito de família (que, por si só, implica várias coisas), criaram escolas, instituições, etc. Tudo isso faz parte do mundo humano e nossa vida está condicionada pela existência dessas coisas. Ainda que isso não signifique que somos inteiramente condicionados por elas, pois o homem tem a capacidade de criar e de modificar o mundo ao seu redor.
Podemos nos desvincular de determinados pensamentos e sentimentos que nos impedem de fazer coisas que nós achamos interessantes (e que, se não fazemos, é por saber que existe um contexto externo não-favorável), mas aí é só meio caminho andado, pois aquilo que nos limita está, na verdade, fora de nós.

 
Às 1 de Fevereiro de 2009 13:00 , Anonymous Anônimo disse...

Olá Juliana,

Respeito sua colocação, mas para mim o exterior não é uma limitação, mudando os seus pensamentos, seus sentimentos e suas ações o mundo ao seu redor responde da mesma forma e novas portas se abrirão! Desafios existem e estão aí para serem superados! Se vc pensa, sente e age... a mudança existirá! Os "corajosos" são aquelas pessoas que acreditaram em seus ideais e conseguiram provocar mudanças no meio em que vivem e em maiores escalas... é necessário uma pitada de ousadia!
Superar essa "realidade criada e construída pelos homens", e viver a realidade construída por vc! Não fugir do meio social existente, mas saber viver da melhor forma dentro dele! Encará-lo não como uma limitação, mas como um paradigma a ser quebrado! O mundo externo não pode nos manipular, vc precisa utilizar as ferramentas, que o mundo externo te dá, a seu favor!
Por isso acredito que, o interno é a nossa maior limitação, enquanto não visualizarmos o mundo de outra forma, o externo sempre será limitação.
Será q essa limitação visualizada no mundo externo não é apenas um reflexo da limitação que cada um de nós possui em nosso interior? Pq sempre é mais cômodo colocar a "culpa" no sistema e não assumirmos a nossa responsabilidade com o mundo?

OBS: Grata pelo debate, acredito que a troca de idéias com pontos de vistas diferenciados, muito acrescentam para cada um de nós!

Ass: Yellow

 
Às 1 de Fevereiro de 2009 18:56 , Anonymous Rafael Issa disse...

Yellow,

A questão não é "colocar a culpa no sistema e não assumirmos a nossa responsabilidade com o mundo". Não se trata aqui de "vamos culpar o sistema, não fazer nada e ficar dentro de casa chorando e fazendo-se de vítima".

Muito pelo contrário. Dizer que, sim, existe um mundo exterior à nós, existe um sistema constituído e que ele nos coloca dificuldades, não significa que a proposta colocada no post seja a de se eximir da responsabilidade de batalhar uma vida mais livre, mais digna etc. O texto da Juliana está inclusive conclamando as pessoas à fazerem isso, nesta mesma intenção de superação das adversidades (colocadas pelo exterior) que você defende em seus comentários - partindo justamente da interioridade que se conscientiza e, conscientizada, se insurge contra as dificuldades do mundo exterior. Ninguém aqui disse algo como "o reconhecimento da existência de adversidades externas devem nos paralisar". Nós estamos apenas apontando um problema. Nós apenas dissemos: "Adversidades externas existem". E elas existem mesmo. O sujeito pode ser livre para escolher estudar no melhor colégio da cidade de São Paulo. Mas se ele nasceu em uma família pobre, que não tem como pagar o colégio, ele então terá diante de si uma "adversidade advinda do meio". Nada impede que essa família consiga posteriormente melhorar de vida e pagar esse colégio, ou que esse garoto estude em uma escola pública e, esforçando-se, melhore de vida mais tarde. Porém, isso não muda o fato de que "adversidades externas existem". Podem ser superadas? Podem. E o texto mostra justamente isso. Mas que tais adversidades existem, existem. Eu também, como você, acredito que "os corajosos são aquelas pessoas que acreditaram em seus ideais e conseguiram provocar mudanças no meio em que viveram". Só que se elas provocaram mudanças neste meio, foi porque este meio apresentava certos problemas. Neste sentido, o texto da Juliana não discorda da posição que você coloca aqui, porque afirma justamente a necessidade de, com coragem, peitar esse mundo externo por vezes tão difícil.

Abraços!

==//==

"Sempre recusei os fatalismos. Prefiro a rebeldia que me confirma como gente e que jamais deixou de provar que o ser humano é maior do que os mecanicismos que o minimizam". (Paulo Freire)

 
Às 2 de Fevereiro de 2009 14:46 , Anonymous Anônimo disse...

Olá amigos,

Concordo com as últimas palavras do Rafael, e assim, através deste "debate", acredito que podemos chegar a uma resposta para o post da Juliana.
Na minha opinião, é possível sim nos libertarmos dessas correntes, se cada um de nós tiver a coragem para enfrentar todos esses desafios internos e externos ao qual estamos submetidos!

Grata pelas opniões,

Juliana, parabéns pelo post! Ao meu ver, gerou um debate profundo e realista.

Rafael, parabéns pela sua visão ampla e sólida do mundo e do ser.

Que vcs possuam a CORAGEM para enfrentar todos os desafios da vida... isso é viver!!!

Beijos a todos!

Ass: Yeloow

 
Às 3 de Fevereiro de 2009 8:42 , Blogger Juliana disse...

Bom, é certamente uma coisa a se pensar, mas acho que estamos longe de resolver a questão. Aliás o meu propósito em fazer uma questão era justamente deixar em aberto, deslocar o foco para o questionamento e as escolhas pessoais (que é onde tudo começa), ao invés de fornecer uma "fórmula para o sucesso". Continuo achando que a questão é mais complexa do que isso, não me agrada muito esse discurso "basta acreditar", "basta fazer isso", que simplifica muito. Não acredito que um indivíduo consiga criar para si uma realidade independente do mundo, a menos que ele se isole totalmente, senão vai sempre esbarrar em coisas que limitam a sua ação e que impõem dificuldades, agem contra ele. Para criar uma realidade justa e interessante para a coletividade dos homens é necessário muitas coisas além de coragem. Mas já é um começo. =)

 

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