sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Você tem sede de quê?

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte
(Titãs - Comida)



A diversão é uma necessidade básica humana, se não de primeira grandeza, ao menos de segunda. Seja como forma de passar o tempo, distração, repouso ou simplesmente enquanto lazer, todos nós precisamos de entretenimento e diversão. Panis et circensis (“pão e circo”) era uma prática política na Roma antiga que, garantindo aos cidadãos a satisfação dos seus desejos mais básicos, garantia também a harmonia e a manutenção do estado de coisas, o status quo do Império. Desde que tivessem pão (alimento) e circo (diversão), estavam todos felizes e satisfeitos, alienados das decisões políticas, evitando, assim, revoltas que pudessem comprometer e/ou desestabilizar o poder instituído. Coisas passadas...


O entretenimento se difere da cultura, embora esta (tomada em um sentido amplo) englobe aquele. As formas inventadas pela sociedade para se divertir e passar o tempo diferem de época para época, de sociedade para sociedade e são, portanto, culturais. Para nossos amigos romanos, gladiadores lutando pela vida, para nós, televisão, carnaval, futebol, balada. Novamente: a diversão é uma necessidade básica humana e ninguém, em hipótese alguma, será contra a diversão em si. O problema é quando o entretenimento passa a englobar, destruir e substituir outras esferas da cultura, principalmente quando nos referimos às produções artísticas e intelectuais.


A arte sempre serviu também ao entretenimento e a sua qualidade de belo, da beleza da forma que toma, é, em parte, o que garante a sua existência, permanência e relevância no mundo. No entanto, a arte é também, acima de tudo, produto do trabalho de um indivíduo que procura capturar dada realidade e experiência e ordená-las, interpretá-las, transfigurá-las em um objeto que assume tal forma que cria, concretiza e compartilha sentidos, possibilitando a inserção e pertencimento do sujeito em uma tradição, em uma história de vida que o transcende e do qual ele faz parte e possui um lugar de ação e modificação da realidade dada. Por isso, a arte possui também um caráter revolucionário, de desautomatização, procurando revitalizar e libertar a percepção habitual, cotidiana e desvendar, desocultar de modo que o que não é perceptível se torne perceptível.




“E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado.”

(CHLOVSKI)



Pois bem, basta passar os olhos em qualquer lista de “livros mais vendidos” ou “filmes mais assistidos” para constatar que tais produtos não compartilham exatamente da mentalidade descrita acima. Ao invés de desautomatização, prometem automatização, pois os acontecimentos não só nos são dados em sua completa banalidade, como também o próprio produto, muitas vezes, não é senão a cópia da cópia da cópia da cópia da cópia da cópia e, portanto, nos é inteiramente familiar, prevemos exatamente o que vai acontecer, quando, com quem, porque e qual será o desfecho. A comunicação ocorre imediatamente, sem problemas ou interferências para o receptor, não nos é exigido pensar, refletir, estranhar, perceber, imaginar, mas pura e simplesmente desfrutar, usufruir, consumir passivamente o enlatado velho com nova repaginação.


O problema recai justamente no fato de que, não só deixamos de exercitar nossa capacidade crítica, analítica e estética, como também passamos a enxergar tais produtos como bens de consumo imediato, fugazes, banais, descartáveis e uma vez que a lógica do consumo é atribuída aos produtos da cultura, perde-se a qualidade vital destes, bem como a própria idéia de permanência e durabilidade no mundo, já que tudo passa a ser perecível. Estamos perdendo o elo de ligação que nos garante o pertencimento, o lugar e o sentido na história e na existência, correndo o risco de anular qualquer promessa de futuro, pois a atitude do consumo, que vê tudo como um bem a ser consumido e devorado (inclusive o próprio mundo), não é senão predatória. O horizonte não é dos melhores.

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