“O fim está no começo e no entanto continua-se.”
Nada a fazer. Não por acaso, esta é a fala de abertura da peça "Esperando Godot" do escritor irlandês, Samuel Beckett. Escrita em 1949, nos anos do pós-guerra, em Paris é considerada por muitos uma reviravolta no teatro europeu. A crueza do cenário, composto apenas por uma árvore sem folhas, a falta de ação dos personagens, o rompimento da barreira entre a cena e o público, como, por exemplo, quando Estragon, junto à platéia, diz “Esplêndido espetáculo”, longos silêncios, recursos amplamente explorados pelas encenações atuais, eram ainda novidade quando Beckett os usa.
A história da peça é curta e simples, Vladimir (Didi) e Estragon (Gogô) esperam por Godot, personagem que, no entanto, nunca aparece. E o que acontece, então? Nada. “Não há nada pra fazer”, como se fala durante a peça. Os personagens matam o tempo, esperando que a noite caia para que eles possam ir embora e voltar novamente na tarde seguinte, numa eterna espera a Godot, que, supostamente, pode lhes garantir o futuro. Em determinado momento (tanto no primeiro quanto no segundo ato) encontram Pozzo e Lucky, que lhes oferecem uma distração momentânea, “Quase fomos a pique. Reforços, finalmente!”, como diz Vladimir no segundo ato.

Os personagens parecem mergulhados em um tempo suspenso, fora da História, embora hajam esparsas menções a anos e acontecimentos passados, eles próprios são dotados de uma memória deficiente, excetuando-se Vladimir, que, por vezes, parece o único realmente lúcido. Sem passado e sem futuro garantido, os personagens ficam abandonados, à deriva, em um eterno tempo presente, condenados à espera de algo que nunca se completa. Daí a estrutura repetitiva da narração, repetindo a mesma fala, os mesmos diálogos, os mesmos tiques nervosos, sem que os personagens percebam, necessariamente.
“Estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos?”
Em outra peça de Beckett, "Fim de Partida", são usados os mesmos recursos de suspensão espaço-temporal, de repetição, abordando e aprofundando as relações de domínio apenas esboçadas em "Esperando Godot" por Pozzo e Lucky. Hamm, personagem literalmente central de "Fim de Partida", pois insiste que coloquem sua cadeira de rodas exatamente no meio da sala, atua como o soberano de um reino de destroços. Aqui o desolamento que atinge os personagens é inclusive físico, os pais de Hamm têm as pernas amputadas e ficam dentro de latões, Hamm, por sua vez, é cego e não pode andar e Clov, que é o único personagem dotado de mobilidade física, não pode se sentar. Enquanto que em "Esperando Godot" podemos recorrer a uma esperança débil em meio à espera, em "Fim de Partida" ela já foi totalmente esvaída e resta aos personagens esperarem pelo fim, “Acabou, está acabado, quase acabando, deve estar quase acabando” diz Clov logo no início da peça.
Embora em ambas as peças a situação trágica dos personagens seja apresentada vestida de trajes cômicos, Fim de partida é um pouco mais seca e cruel do que a outra. A dupla Didi e Gogô oferece uma dinâmica perfeita e divertida, oferecendo muitos momentos de riso, no entanto a natureza desolada nunca é deixada de lado. Aqui vale a pena observar que nas duas peças podemos tecer esquemas de dupla: Didi e Gogô, Pozzo e Lucky, Hamm e Clov, Nagg e Nell. Todas essas parecem “atreladas” a si, por bem e por mal. Como Vladimir diz para Estragon a certa altura, este é sua última esperança, sem ele estaria perdido e, ao mesmo tempo, ambos dizem se sentir melhor quando se separam. Estragon está a todo momento dizendo que vai deixá-lo, assim como Clov faz a Hamm. Vladimir e Estragon acham prudente não se enforcar, porque o galho da árvore não aguentaria o peso dos dois e só um morreria.
As relações humanas são, portanto bastante dúbias, ora se assemelham ao inferno sartreano da peça "Entre Quatro Paredes", na qual os personagens estão condenados à eterna vivência com o outro, ora são a salvação, o motivo de sobrevivência do outro. Às vezes parecem meras associações, que os salvam, ao menos, da solidão e do desespero completo, pois não há entre nenhuma dessas duplas uma relação forte de afeto, muitas vezes não prestam atenção no que o outro diz, Vladimir nunca deixa Estragon dormir sossegado, pois se sente sozinho, Hamm está sempre chamando e dando ordens a Clov, que sempre lhe obedece, se perguntando mais de uma vez por que o faz. A diferença é que Vladimir e Estragon ainda têm alguns momentos de afeto, quando se abraçam, quando falam com ternura um com o outro, apesar de esses momentos serem poucos e quebrarem-se sempre, enquanto que em "Fim de Partida" os personagens são tocados por um ambiente mais austero, não se tocam, não se apiedam com o outro. O que parece, na verdade, ligar todos esses pares é uma relação de necessidade, às vezes até mais explícita, quando, por exemplo, Pozzo fica cego e necessita que Lucky o guie.
Antes de abordar como tema o tédio, o desespero, a rotina repetitiva que não se percebe como tal, a solidão, a espera, a incapacidade de mudança, Beckett os realiza concretamente como peças teatrais. "Esperando Godot" é a própria espera, a própria repetição, o tédio e a monotonia são o alicerce, a estrutura pela qual a peça se realiza. O segundo ato, em que o leitor já está familiarizado com a situação, parece menos natural do que o primeiro, a esse ponto os próprios personagens se encontram mais irritados, os diálogos parecem mais mecânicos e cansativos e fica cada vez mais difícil preencher o tempo. As situações do primeiro ato se repetem com algumas variações e os personagens, tirando Vladimir, não só não aprenderam nada, como não lembram de nada acontecido no dia anterior. A única esperança em meio à incerteza é a espera por Godot.
"Estamos no lugar e hora marcados e ponto final. Não somos santos, mas estamos no lugar e hora marcados. Quantos podem dizer o mesmo?".
É até irônico a atualidade que a peça carrega depois de quase 60 anos de existência. Será que nós mesmos, assim como Didi e Gogô, não estamos nos repetindo eternamente desde então? Não é exatamente essa mesma situação de desamparo que ela quer denunciar? O automatismo, a eterna volta do mesmo, a total falta de um estímulo ou um ideal que garanta, senão a quebra dessas estruturas repetitivas, ao menos algum sentido que perpasse esse aqui-agora monótomo e sem razão de ser. No teatro de Beckett experienciamos o extremo do absurdo, da solidão e do desespero a que a sociedade nos levou em busca de suas satisfações e somos deixados talvez não tão melhores e nem tão distantes dos personagens, mas com uma vantagem: a possibilidade de um despertar para a reflexão e a visão crítica para que talvez algum dia possamos romper com essa situação.
"Façamos alguma coisa enquanto há chance! Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo".
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