Indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar
Dinheiro traz felicidade? Eis uma questão que vai muito além dos ditos da sabedoria popular. Na busca por uma resposta plausível, um grupo de pesquisadores, resolveu criar questionários com base na relação existente entre dois indicadores: o bem-estar social subjetivo, aquele que se refere a satisfação do ser humano com a sua própria vida; e o bem-estar social objetivo, aquele que se refere a aquisição de bens. Pois bem, com base nesta idéia resolvi selecionar um texto muito interessante do economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca. Para quem não o conhece, ele é Ph.D. pela Universidade de Cambridge (Inglaterra), professor do IBMEC e tem como foco de seus estudos a História do Pensamento Econômico.
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Qualquer que seja o propósito último da existência humana de um ponto de vista cósmico, uma coisa é certa: o propósito terreno das pessoas de carne e osso em qualquer lugar do planeta é alcançar a felicidade e fazer o melhor de que são capazes de suas vidas.
A busca do prazer e a aversão à dor não detêm o controle exclusivo das ações que conduzem à felicidade, mas são guias indispensáveis na realização deste fim. A natureza não dá ponto sem nó. Uma espécie biológica que sofresse dores lancinantes ao saciar os seus apetites por alimento, sexo e sono estaria com os dias contados. A mensagem que a língua cifrada da dor e do prazer físicos é inequívoca: a natureza nos quer vivos e dispostos a procriar. O que os materialistas libertinos do século XVIII intuíam é hoje uma evidência científica: o orgasmo feminino eleva de forma significativa as chances de fecundação no ato sexual. Como ensinava o velho e bom Aristóteles, "o prazer aperfeiçoa a atividade".
A questão do segredo da felicidade e do lugar do prazer na melhor vida ao nosso alcance tem ocupado alguns dos melhores (e piores) cérebros da humanidade há milênios. Do esoterismo neoplatônico aos manuais de auto-ajuda que abarrotam as livrarias, existem receitas para todos os paladares. Mas é somente de alguns anos para cá, a partir do início da coleta sistemática de evidências e dados empíricos sobre o assunto, que um trabalho rigoroso começou a ser desenvolvido. Alguns dos resultados até aqui obtidos estremecem convicções fortemente enraizadas.
Os programas de pesquisa em andamento atacam a questão dos determinantes da felicidade por diversos ângulos. Entre eles se destacam: o estudo do que torna certos estados de consciência mais ou menos aprazíveis; a identificação dos fatores pessoais, socioeconômicos e culturais associados a variações de bem-estar subjetivo; e as bases químicas, hormonais e neurobiológicas das experiências mentais e emocionais que levam alguém a se sentir mais ou menos feliz com a vida que tem. A febre em torno do tema nos meios acadêmicos, especialmente nos Estados Unidos, pode ser avaliada pela criação de um novo periódico integralmente dedicado ao assunto - o Journal of Happiness Studies. O interesse pelo tema, alguém poderia ironizar, é sintomático. Se a felicidade (ou a falta dela) não houvesse se tornado um problema, existiria tamanha preocupação em pesquisá-la?
O que torna as pessoas felizes? A pergunta pode soar arrogante e pretensiosa, mas a resposta não precisa ser. O primeiro passo é constatar que o bem-estar humano abarca dois componentes básicos.
Existe uma dimensão objetiva, passível de ser publicamente apurada, observada e medida de fora, e que se reflete nas condições de vida registradas por indicadores numéricos de nutrição, saúde, moradia, uso do tempo, renda per capita, desigualdade, criminalidade, poluição e assim por diante; e há uma dimensão subjetiva, que é a experiência interna do indivíduo, ou seja, tudo aquilo que se passa em sua mente de forma espontânea enquanto ele vai vivendo e agindo no decorrer dos dias e que volta e meia ocupa a sua atenção consciente nos momentos em que ele se dá conta do que está sentindo e pensando ou reflete sobre a vida que tem levado.
A felicidade é algo que sucede na confluência das duas dimensões. Situações extremas revelam a dependência recíproca entre ambas. Se o lado objetivo não preencher requisitos mínimos, a carcaça biológica sucumbe e não há mais bem-estar possível (pelo menos entre os vivos). Mesmo um faquir precisa vez por outra entreter o estômago. Mas para alguém cronicamente deprimido, em contrapartida, o viver é insípido e nada recobra o gosto de ser quem se é. Embora cercado de luxo e conforto, sua vida beira o insuportável: "não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu".
O grande desafio para quem se propõe a analisar os determinantes da felicidade na vida e convivência humanas é obter informações e dados empíricos confiáveis sobre a dimensão subjetiva do bem-estar. Observar diretamente o fenômeno está fora do nosso alcance - apenas alguma forma desconhecida de endoscopia da psique humana, algo difícil de ser concebido até mesmo especulativamente, daria conta da tarefa. O desafio, contudo, é real. Dado que não é possível observar e medir de fora o bem-estar subjetivo, como então saber se as pessoas estão se sentindo mais ou menos felizes com a vida que levam à medida que as condições do mundo ao seu redor se transformam?
A saída encontrada foi perguntar a elas. Nas últimas três décadas, uma formidável bateria de questionários e entrevistas vem sendo aplicada a amostras representativas das populações de dezenas de países, principalmente entre os de alta renda per capita, procurando obter respostas sobre o grau de felicidade (elevada, moderada ou baixa) dos indivíduos com a sua vida como um todo.
O método, é certo, desperta dúvidas metodológicas legítimas, mas pelo menos oferece uma primeira aproximação do que era até aqui uma verdadeira terra incognita. Ele tem recebido aprimoramentos ao longo do tempo e, mais importante, tem gerado resultados que satisfazem critérios externos de validação, que são consistentes na experiência de diversos países e que parecem justificar um esforço continuado de análise e investigação.
Uma das descobertas centrais do programa de pesquisa sobre os determinantes da felicidade é que a relação entre os indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar está longe de obedecer a um padrão bem-comportado. Como resumem os organizadores da mais completa e atualizada coletânia de papers sobre o que se produziu até o momento na área: "Há várias décadas os cientistas sociais deram início a investigações em larga escala sobre a satisfação dos indivíduos com as suas vidas e a sua sociedade. Um dos achados mais robustos desta pesquisa foi que as correlações entre os juízos globais sobre a qualidade de vida e as condições objetivas são freqüentemente bastante fracas".
Uma amostra das evidências e achados surpreendentes descritos na lietartura especializada ajuda a ilustrar a natureza dos resultados obtidos:
Décadas de forte crescimento econômico nos Estados Unidos, Europa e Japão na segunda metade do século XX muito pouco ou nada alteraram as proporções de indivíduos felizes e infelizes na população dos respectivos países; o crescimento compra felicidade nos países extremamente pobres, mas a partir do momento em que uma nação atinge determinado nível de renda (cerca de U$ 10 mil anuais per capita ou o equivalente à renda atual de países como Irlanda, Portugal e Coréia do Sul), acréscimos adicionais de renda não mais se traduzem em ganhos de bem-estar subjetivo; entre 1975 e 1995, por exemplo, a renda média por habitante nos Estados Unidos aumentou 43% em termos reais, ao passo que a felicidade média dos americanos não saiu do lugar.

Embora exista um vínculo positivo entre felicidade relatada e nível de renda pessoal
dentro de cada país, ou seja, há uma proporção maior de felizes entre os mais ricos, o impacto de aumentos da renda pessoal em termos de bem-estar subjetivo tende a ser forte somente para as faixas de menor renda na sociedade, declinando sensivelmente a partir de patamares um pouco mais altos (cerca de U$ 20 mil anuais no caso americano). Curiosamente, o vínculo entre renda e felicidade volta a ficar fortemente positivo quando se atingem níveis ainda mais elevados de renda (cerca de U$ 80 mil anuais).
Os desempregados involuntários apresentam taxas significativamente maiores de infelizes, suicidas e parassuicidas do que a média da população, mesmo em países com generosos sistemas de salário-desemprego e mesmo que se controle o efeito da perda de renda; os aposentados, entretanto, apesar de não possuírem emprego, relatam níveis de satisfação com a vida ligeiramente acima do verificado entre os que estão empregados e trabalhando.
Uma pesquisa de opinião feita em 1999 com cerca de 3 mil mulheres em onze países revelou que 93% das entrevistadas acreditam estar em melhor situação do que estavam as suas avós no tocante a direitos e oportunidade; em contrapartida, a maioria delas (54%) não se considera mais feliz do que teriam sido as mulheres na geração de suas avós.
Um estudo clássico realizado com ganhadores de prêmios vultuosos em loterias (média em torno de US$ 500 mil) constatou que passado o "pico" da euforia momentânea, os ganhadores não apresentavam níveis de bem-estar subjetivo distintos dos verificados entre os não-ganhadores e relatavam menor grau de prazer do que antes do prêmio ao realizar seus afazeres comuns do dia-a-dia; efeito simétrico foi observado em prisioneiros condenados a confinamento solitário: após um período inicial de "inferno mental" de cerca de 72 horas, eles passaram a considerar a experiência bastante tolerável.
Existe um forte vínculo positivo entre saúde e bem-estar subjetivo; ocorre, porém, que ele somente se mantém quando o indicador de saúde utilizado é a percepção que a própria pessoa tem do seu estado de saúde: a correlação se enfraquece ou desaparece por completo quando o indicador utilizado é a avaliação feita pelos médicos sobre o estado de saúde daquela pessoa ou, ainda, a freqüência com que ela precisou consultar serviços médicos ou ser hospitalizada; em suma: as crenças do indivíduo sobre a sua própria saúde têm maior grau de correlação com a sua felicidade do que os indicadores objetivos de saúde.
Fatos como estes - e diversos outros poderiam ser arrolados - dão o que pensar. A noção de racionalidade tem a ver com a escolha dos meios adequados para a obtenção de um determinado fim. A ação racional é aquela que, dadas as restrições de recursos e conhecimento disponíveis, identifica, mobiliza e aplica o melhor método existente para alcançar o objetivo pretendido. Mas o fato de uma ação ser racional não quer dizer que ela será capaz de atingir o alvo. O avanço do conhecimento pode revelar que ações que pareciam perfeitamente racionais na busca de determinado fim, dado o que se supunha conhecer sobre o mundo, na verdade não o são. (Um exemplo: se os médicos têm razões para crer, no momento t1, que o remédio A cura a moléstia B; mas depois se descobre, em t2, que ele provoca o efeito colateral C, pior que B, então a prescrição de A era racional em t1, mas deixa de sê-lo em t2.)
A felicidade sempre foi e continua sendo um grande fim, se não a finalidade suprema, em nome do qual se justificam escolhas na vida pública e privada. Assim como a saúde está para a medicina, o pursuit of happiness, o bonheur public, a felicitá pubblica seria o objetivo maior frente ao qual toda a maquinaria do processo político, social e econômico constituiria tão-somente um meio adequado e ao qual estaria subordinada. O economista Irving Fisher - amplamente reconhecido como o maior cientista econômico americano de todos os tempos - é claríssimo sobre isso. Toda atividade produtiva, ele argumentou, "e todas as transações monetárias que dela decorrem derivam a importância que possuem somente na condição de preliminares úteis e necessárias da renda psiquíca - da satisfação humana (human enjoyment)". De Petty e Turgot, no século XVIII, a Keynes, Friedman e Samuelson, poucos economistas dignos de nota discordariam.
O programa de pesquisa sobre os determinantes do bem-estar subjetivo está abrindo à visitação pública a "caixa-preta" das experiências psíquicas das mentes individuais. Mas se é verdade, como tantos acreditam, que o desempenho econômico importa e faz sentido somente na medida em que propicia o aumento da felicidade, então há algo problemático e perturbador nas evidências sobre o que vem ocorrendo com a renda psíquica nos países ricos.
A pergunta que fica é: por que a relação entre os indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar se revela tão caprichosa? A riqueza material e as condições objetivas de vida são um bom indicador do bem-estar de uma sociedade? Como interpretar a pletora de aparentes anomalias que os estudos empíricos sobre a felicidade e a psicologia do prazer vêm produzindo? Na vida pública, assim como na pessoal, os meios escolhidos estão conduzindo aos fins desejados.
(Texto retirado do livro "Felicidade - Diálogos sobre o bem-estar na civilização", pgs. 59-69 )
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A hipervalorização da dimensão econômica da vida
Um dos aspectos mais interessantes e importantes ao se analisar a crise econômica que a sociedade mundial está vivendo é o desejo incessante por riqueza, o que leva o homem a tomar decisões irreponsáveis, desconsiderando todos os custos que estas podem trazer. É fato, as crises geralmente acontecem por excessos que são cometidos tendo como fim, na maioria dos casos, um enriquecimento cada vez maior em um espaço de tempo cada vez menor. Uma crítica existente em relação aos anseios da sociedade, é a busca incessante e descomedida por resultados, custe o que custar. O estresse das pessoas diante da agressividade das exigências do mercado atual é preocupante e, felizmente, de uns tempos para cá, aos poucos, as empresas estão começando a olhar para este esta problema, disponibilizando espaços de entretenimento e relaxamento, porém, e isto é que me preocupa, a lógica continua mesma, disponibiliza-se estes momentos com a finalidade de o funcionário produzir mais e mais. É a hipervalorização da dimensão econômica da vida. Há uma submissão do individual e do social ao econômico, quando na verdade deveria ser o contrário. Abaixo coloco uma rápida entrevista realizada com o economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca, onde ele fala um pouco sobre esta questão.
Marcel Tutui Gianotti é autodidata de temas relacionados à política, economia e sociedade.
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