quinta-feira, 12 de março de 2009

Um pouco de Filosofia - A arte na visão de Friedrich Nietzsche

"A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida,
a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida". (Friedrich Nietzsche)


É de autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) a frase "a arte existe para que a realidade não nos destrua"; Nietzsche acreditava que somente a arte poderia oferecer aos homens força e capacidade para enfrentar as dores da vida, fazendo-os "dizer sim" à ela. A própria vida, argumenta, justifica-se enquanto fenômeno estético - o mundo é um acontecimento estético. E é se voltando para os gregos antigos que Nietzsche faz um elogio da arte, destacando o seu papel "redentor". Mas não é a Grécia da escultura clássica - tão romantizada - que o filósofo elogia, e sim a Grécia pré-socrática, da tragédia antiga. Nela, o destino do herói é sofrer; desse modo, o espectador aceita o sofrimento como parte da vida, e resiste à ele. Ao apreciar uma obra como, por exemplo, Édipo-Rei, de Sófocles (496 a.C. - 406 a.C.), dobramos nossos pensamentos de repugnância a respeito do horrível. É na tragédia ática que, segundo Nietzsche em seu livro O Nascimento da Tragédia, se encontram sintetizados dois impulsos artísticos existentes na própria natureza: o apolíneo e o dionisíaco. Os termos são inspirados em Apolo (imagem) e Dioniso, deuses da mitologia grega. O primeiro pode ser associado à "luminosidade", racionalidade, à sabedoria, às artes plásticas, à estética do sonho, à busca pela perfeição da forma. É pela presença do apolíneo na natureza que cada coisa possui um contorno específico, distinguindo-se de todas as outras; por isso, Nietzsche identifica Apolo como o deus do princípio de individuação, princípio pelo qual, nas palavras do próprio filósofo, "nos sentimos indivíduos colocados em um ponto preciso do espaço e do tempo". A arte apolínea (a epopéia de Homero, por exemplo) seria então um impulso de ordenação do "caos da vida" - uma justificação estético-racional originada na perplexidade diante da natureza, do devir e do absurdo da existência. Por esta razão, acredita Nietzsche, os gregos criaram os deuses olímpicos, uma forma de estética apolínea, cujo intuito é mascarar os terrores da existência (por exemplo, a própria finitude da existência). A beleza é, então, criada artificialmente. Em sua obra Nietzsche e a Verdade, o comentador Roberto Machado - professor da UFRJ - afirma que "a beleza é uma aparência, um fenômeno, uma representação que tem por objetivo mascarar, encobrir, velar a verdade essencial do mundo. Para escapar do saber popular pessimista, o grego cria um mundo de beleza que, ao invés de expressar a verdade do mundo, é uma estratégia para que ela não ecloda. Produzir beleza significa se enganar na aparência e ocultar a verdadeira realidade". Pode-se dizer, portanto, que a consciência apolínea é uma espécie de véu de Maia, que substitui o mundo da verdade por formas belas.

Ao contrário, Dioniso (imagem) é identificado como o deus do êxtase, da música, da dança; não aparência e racionalidade, e sim instinto, paixão, sentimentos selvagens, embriaguez, loucura, caos, desmesura, disformidade, fúria sexual, vitalidade, alegria de viver; não princípio de individuação, mas "saída de si mesmo", abolição da subjetividade, sentimento místico de unidade, fusão do homem com a natureza e com os demais homens, desvelamento do mistério do Uno-Primitivo. O desenvolvimento da arte está, para o filósofo, ligado à duplicidade do dionisíaco e do apolíneo. O mundo grego teria, portanto, encontrado uma síntese entre estas duas tendências. Neste momento de integração entre Apolo e Dioniso, o primeiro transforma um fenômeno natural (o dionisíaco) em fenômeno estético; isto é, o dionisíaco puro, bárbaro, se torna arte na união com Apolo. De acordo com o professor Roberto Machado, "não se trata, em Nietzsche, de negar a aparência em nome da essência. Se o dionisíaco puro é aniquilador da vida, se só a arte torna possível uma experiência dionisíaca, não pode haver dionisíaco sem apolíneo. A visão trágica do mundo, tal como Nietzsche a interpreta, é um equilíbrio entre ilusão e a verdade, entre aparência e a essência". Nietzsche entendia que a tragédia tinha a função de ser um "tônico da vida". Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), filósofo da Grécia antiga (pós-trágica, contudo), também preocupou-se - em sua obra Poética - com o estudo da tragédia, que seria, ao seu ver, mimese, ou seja, imitação de ações humanas (assim como toda arte poética, de acordo com o filósofo grego). O homem sentiria um prazer congênito na imitação, além de uma disposição natural para a melodia e o ritmo; assim teriam surgido as artes poéticas. Para Aristóteles, ao contrário do que pensava Nietzsche, a tragédia - a quem o filósofo grego deu uma atenção toda especial - tinha uma função moral: suscitando no público uma mescla do sentimento de terror com o sentimendo de piedade, provocaria a catarse dessas emoções, purificando o espírito do espectador de suas paixões "degradantes". Nietzsche acreditava justamente no oposto, isto é, que a função trágica era estimular - e não purificar - essas paixões. Nietzsche argumenta ainda que Aristóteles não teria percebido a existência do apolíneo e do dionisíaco na cena trágica. Esta cena terminaria com a vitória final da ironia socrática.

O filósofo Friedrich Nietzsche

O fim da tragédia. Mas como Nietzsche interpreta o fim da tragédia grega? Como resultado da racionalização da arte, fruto do processo progressivo de supremacia do espírito apolíneo, desencadeado pela influência do filósofo grego Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.). Para Nietzsche, já com o tragedista Eurípides (480 a.C. - 406 a.C.) vai se eliminando da tragédia o elemento dionisíaco, em favor de elementos morais e intelectualistas - pregados pelo socratismo. E afirma: "pela boca de Eurípides falava Sócrates". Segundo o filósofo alemão, "Sócrates foi um equívoco", disse "não" à vida, pois combateu o fascínio dionisíaco. Sócrates - modelo do "homem teórico" - quis dominar a vida com a razão e aí teria começado a decadência da humanidade. De acordo com o nietzschianismo, a razão apolínea era uma aparência, e não verdade; Sócrates - antes disso - identifica razão e verdade, e condena a aparência. Em outras palavras: Sócrates faz triunfar o mundo abstrato do pensamento. Assim, a tragédia e posteriormente toda a civilização ocidental acabam invadidas pelo racionalismo. Sócrates acusa a arte de irracionalidade, de representar o agradável e não o útil, de não procurar a verdade e de desviar o homem do caminho da razão. Platão (428 a.C. - 347 a.C.), discípulo de Sócrates, segue o mesmo caminho do mestre: condena as artes. Para ele, a mimese não cria objetos originais, mas cópias da realidade sensível (que, por sua vez, é cópia imperfeita de uma realidade inteligível, o Mundo das Idéias) - ou seja, a arte seria, nesse caso, cópia da cópia, um simulacro, e o artista "o terceiro na fila para o trono da verdade". Diante do desaparecimento da tragédia, Nietzsche - antipático à civilização moderna científica - sonhou com um processo de reestetização do mundo, isto é, com um renascimento da antiguidade grega, do dionisismo no espírito alemão, em nome de uma interpretação de mundo não racional, mas sim artística.

Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

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