quinta-feira, 19 de março de 2009

Watchmen e o triunfo do simulacro


"Infelizmente, a idiotice típica de nossa época não se diferencia mais da inteligência. Confunde-se com ela. Não é mais inculta; ao contrário, é superinformada, possui a mesma vivacidade reflexa da inteligência artificial. É o grau xerox da estupidez que se confunde com o grau xerox da inteligência.
"
(Jean Baudrillard, Cool Memories)



Um dos eventos que me chamaram atenção esse mês foi a aceitação de público e crítica obtida pelo filme Watchmen, adaptação cinematográfica de uma série de quadrinhos publicada em 1986, escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons, e cujo sucesso se deveu, entre vários fatores, ao modo como aprofundou e enriqueceu a temática dos super-heróis, conferindo novos níveis de acepção a um universo até então artificial e superficial.

A série era repleta de metáforas políticas, mergulhos sociais e psicológicos a partir de personagens complexos, densos e, sobretudo, humanos. Moore explorou as possibilidades do meio quadrinho com tamanha intensidade que muitos consideraram impossível adaptar Watchmen à telona, e demorou vinte anos para que isso acontecesse.

O que me pasma é a boa recepção obtida pelo filme entre fãs e críticos, que não apenas o acharam bom como também fiel à obra original. Não vi qualidade nem fidelidade nesse longa-metragem, e notar que poucos percebem isso me faz pensar no quanto estamos ficando refém dos simulacros que a industria cultural cria.

Esse filme Watchmen é um simulacro bidimensional do quadrinho. Mal funciona como filme, não tem altos e baixos, início, meio, fim, dramas, personagens ou mesmo uma história a ser contada. É um espetáculo de trucagens e efeitos de computador que busca entorpecer nosso senso crítico sobrecarregando os sentidos com informações que nada dizem, mas que nos mantém ocupados e deslumbrados o bastante para não pensar no que acontece. E, enquanto não pensamos, falas e situações são tomadas emprestado do quadrinho para que saibamos que estão lá, que o diretor cumpriu sua promessa, "manteve-se fiel à obra-mãe" e, portanto, pode costurá-las e executá-las de modo que sirvam aos propósitos de seu "verdadeiro filme", ou o único tipo de cinema que esse homem chamado Zack Snyder sabe fazer, sem que alguém note o abismo de diferença entre a obra original e a derivada.

O Watchmen de Snyder pertence a uma estirpe de filmes narcisistas cujo único sentido se resume ao instante em que uma cena é mostrada. Houve época em que efeitos especiais tinham de suprir necessidades narrativas. Hoje, é a história e tudo o mais que servem o efeito. No caso de Watchmen, chega a ser pior, porque o enredo ou o simulacro de enredo sequer foi escrito para o filme, mas tomado de outra obra, recosturado e esterilizado, mal funcionando como pretexto de pirotecnia, como quer o diretor. Snyder não sabe ser sutil, não sabe sugerir ou insinuar como fez Moore em seu trabalho. Ele precisa "mostrar" o que o quadrinho insinuou e realiza seu marketing em função disso, como se, nos referidos momentos-chave, seu filme fosse além da obra, mostrando o que não se pôde ver, transpondo as barreiras do meio quadrinho. Snyder, na verdade, quer o oposto. Encobrir de marfim o vazio de sua versão, esconder sua incapacidade de ir além da ponta do iceberg. Mal pode imergir no universo tridimensional que Alan Moore criou.

Num tempo em que a lógica imediatista de comerciais e videoclipes toma conta do cinema, testemunhamos o triunfo do tipo. O tipo é um corpo oco sem substância ou qualquer coisa que o justifique. Não há uma linha invisível costurando a trama, as falas, as emoções dos personagens de Watchmen, dando-lhes razão de ser, por isso suas reações soam falsas quando o enredo as pede. Os personagens são ocos e interpretam sentimentos que não possuem. Sim, são os personagens e não os atores que interpretam. Aliás, simulam, como o filme todo pretende simular um "quadrinho em movimento", aproveitando-se de uma experiência que já estava na mente do fã antes do longa começar, porque nada vem do filme, que sequer tem vida própria.


Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Ele escreve para a Revista Sina e o blog "notícias do front 3".

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