quinta-feira, 23 de abril de 2009

Psicologia - Freud e a religião

Em tese apresentada no livro O Futuro de uma Ilusão (1927), Sigmund Freud - considerado o pai da psicanálise - afirma que a religião é uma ilusão fruto do inconsciente humano. Ou seja, a fé manifestada no homem que crê possuiria motivações psicológicas e, deste modo, poderia ser cientificamente explicada. Tal argumento é desenvolvido a partir da noção de mal-estar na civilização; de acordo com o pai da psicanálise, a sociedade civilizada impõe aos indivíduos, através de instituições e regulamentos, um alto grau de coerção e repressão dos instintos essencialmente antisociais e anticulturais. Freud acredita que esse fato psicológico tem importância decisiva para a civilização e descreve o que significaria a ausência dessa coerção instintual: "Se imaginarem suspensas as suas proibições — se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença—, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de poder. E mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem pelo menos um mandamento cultural: não matarás". As duas pulsões fundamentais descritas por Freud em suas últimas obras seriam o Eros (instinto erótico) e o Tanatos (pulsão de morte, violência e destruição).

A religiosidade teria uma explicação meramente psicológica? Freud acreditava que sim

Portanto, ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade do homem - através da civilização - proteger-se dos perigos implícitos numa total liberação dos instintos, Freud constata que os indivíduos sentem com fardo os sacrifícios que a sociedade civilizada exige. Quanto mais a civilização se sofistica, mais o homem seria afastado de sua condição animal primordial e - conseqüentemente - mais ele sentiria-se desconfortável. O argumento é o de que inicia-se já na infância um processo de fortalecimento do super ego (aquela "vozinha interna" que nos diz "isso não pode"); o indivíduo se torna um ser moral-social por meio de um conjunto de normas que são internalizadas (processo que não ocorreria amplamente no caso dos neuróticos) e incluem diversos tipos de proibições. Ao estudar a religião, Freud utiliza o mesmo esquema interpretativo anteriormente usado para a compreensão das neuroses obsessivas que – assim como no caso da fé – seriam fruto da repressão instintual. Frustrado e inconscientemente ferido em sua auto-estima, o homem se consolaria com satisfações substitutivas – como, por exemplo, a criação artística e a religião, nas palavras de Freud uma espécie de “neurose obsessiva universal” da humanidade. Neste sentido, sua tese lembra a filosofia do pensador alemão Friedrich Nietzsche (a obra Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D Yalom, faz, embora utilizando-se da ficção, uma aproximação entre os pensamentos de Freud e Nietzsche). Nietzsche também via a arte (ler o post A Arte na Visão de Friedrich Nietzsche) e a religião como uma "atividade compensatória", embora a primeira em sentido positivo e a segunda em sentido negativo. É justamente a partir da noção de "compensação" que Freud insere o fenômeno religioso. Incapaz de controlar totalmente a natureza que contra nós se ergue "majestosa, cruel e inexorável", o indivíduo reage: reproduz a idéia de Deus, para tornar tolerável o seu desamparo, como uma contraposição às vicissitudes e necessidades da vida cotidiana. Se Deus existe, é porque a vida serve à um propósito mais elevado (onde o bem é recompensado e o mal castigado) e tudo nesse mundo constituiria obra de uma inteligência suprema. Assim, a morte do indivíduo não significaria necessariamente sua extinção, mas sim o começo de uma existência superior.

Freud (imagem à esquerda) avalia que a função psíquica e inconsciente da religião é "exorcizar os temores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida civilizada impõe". Da mesma forma que os sonhos, a religião serviria ao propósito de satisfação do desejo inconsciente; o desejo de proteção, calcado em um protótipo infantil. Neste sentido, a religião seria uma extensão do instinto de proteção que o indivíduo, na infância, nutre em relação aos seus pais. Este "anseio pelo pai" constituiria o fenômeno religioso e reproduziria na psique humana um deus paternal e misericordioso; instâncias inconscientes voltadas para a busca da segurança teriam iniciado um itinerário de antropomorfização dos processos naturalistas na vida psíquica do indivíduo (e conseqüentemente da coletividade). Freud exprime esta noção ao afirmar que “o homem não transforma as forças da natureza simplesmente em homens com quem possa ter relações análogas às que tem com seus semelhantes, o que não seria conforme à impressão deformante que tem dessas forças, mas confere a elas o caráter do pai, faz dela deuses”.

O pai da psicanálise afirma ainda que “as representações religiosas nasceram da mesma necessidade que gerou todas as outras conquistas da civilização, ou seja, da necessidade de defender-se contra a esmagadora "prepotência da natureza". Soma-se isso à um segundo motivo: "o desejo de corrigir as imperfeições, dolorosamente observadas, da civilização”. Em O que é religião?, o filósofo e educador Rubem Alves sintetiza o posicionamento de Freud ao argumentar que “religiões são ilusões, realizações dos mais velhos, mais fortes e mais urgentes desejos da humanidade. Se elas são fortes é porque os desejos que elas representam o são. E que desejos são esses? Desejos que nascem da necessidade que têm os homens de se defender da força esmagadoramente superior da natureza. Eles perceberam que, se fossem capazes de visualizar, em meio a essa realidade fria e sinistra que os enchia de ansiedade, um coração que sentia e pulsava como o deles, o problema estaria resolvido. Deus é esse coração fictício que o desejo inventou, para tornar o universo humano e amigo. Então a própria morte perdeu o seu caráter ameaçador". Assim, a religião é identificada como ilusão derivada de um sentimento originário e oceânico vivido pela humanidade inteira. Convém explicar o que Freud entendia pelo termo "ilusão"; para o pai da psicanálise, ilusão não significa erro, opinião equivocada que necessariamente contradiga a realidade, mas sim algo que provém do desejo humano. A partir daí, é possível dizer que Freud estava muito mais preocupado em mostrar que a religião é fruto de uma vontade humana, do que propriamente avaliar o valor de verdade das doutrinas religiosas. A psicanálise não avalia a experiência da fé com base nos fundamentos da teologia. Não se indaga a respeito da verdade divina; busca, isto sim, investigar as constantes psicológicas da religiosidade. Deseja compreender que mecanismos psíquicos estimulam o indivíduo – em sua interioridade subjetiva – a crer e, somente a partir daí, interpreta a religião como fenômeno cultural de uma coletividade. Para Freud, o "futuro desta ilusão" seria o seu fim; com o desenvolvimento da ciência, acreditava, pouco a pouco os homens deixariam de lado quaisquer aspirações de cunho teológico.

Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

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