sexta-feira, 17 de abril de 2009

Racismo no Brasil: a integração interrompida

Quando confrontados com o dilema das cotas raciais, muitos brasileiros favoráveis às ações afirmativas alegam que estas não podem se fundamentar na cor da pele ou em qualquer fator hereditário, mas unicamente nas origens ou condições sociais do postulante, visto que a razão de termos, cento e vinte anos após o fim da escravidão, poucos negros nos setores privilegiados da sociedade se deve menos a barreiras raciais do que sociais, além do óbvio fato de que muitos brancos também fulguram na base do sistema desigual e, por conseguinte, merecem a mesma atenção e acesso a atalhos. Até escrevi um artigo criticando a tentativa de se importar visões e iniciativas estrangeiras inadequadas à essência do Brasil, e quem me conhece sabe que sou da opinião de que o foco das ações afirmativas nacionais precisa ser mais social do que racial.

Mas, certos ou não, os defensores das cotas raciais ganharam um novo argumento. Se antes eles pouco tinham além da escravidão para justificar seu clamor por compensações étnicas no sistema de ensino, a exumação de fatos históricos pouco conhecidos no presente acaba de lhes conferir outro estandarte. Por mais desprezíveis e danosos que tenham sido trezentos anos de trabalho escravo, é provável que, sozinho, seu legado não constituísse empecilho grande o bastante para impedir uma integração acadêmica que se desenhava entre brancos e negros anos antes da abolição suceder. Uma miscigenação dos setores "letrados" da sociedade que nos daria um Brasil diferente do que temos, caso seguisse seu curso natural. Um Brasil mais pluralista em suas elites.

Por vezes, a pedagoga Maria Lúcia Rodrigues foi chamada de louca ao afirmar que boa parte de nossas escolas públicas do início do século XX tinha um número significativo de professores negros, como também diretores e quase tantos alunos negros quanto brancos, pois dizia o consenso que candidatos negros só concursaram para o magistério a partir dos anos 60. Mas Maria Lúcia conseguiu suas evidências e provou ter razão. Os documentos e fotos que juntou por uma década remontam a identidade escolar de nossa jovem república e seu embranquecimento ao longo da primeira metade do século XX. Um retrocesso que plantou as sementes da atual carência de negros em nossas classes privilegiadas.

Parece loucura, não? Intelectuais brasileiros, contaminados pela eugenia que invadiu a Europa pós-darwinista, convenceram legisladores de que, para ser grande, nosso país precisaria se embranquecer, e teve início um projeto de engenharia social para o futuro. Incentivar a imigração européia e afastar os negros das posições de prestígio, especialmente no meio acadêmico. Professores tiveram sua aposentadoria apressada enquanto medidas como a reforma educacional do Rio de Janeiro de 1927 buscaram, sob pretextos que discriminavam os mais humildes, diminuir gradativamente a proporção negra entre novos alunos e professores. Uma "anticota" implementada de norte a sul do país por três décadas que foi mais eficiente em afastar os negros dos altos escalões sociais para as eras seguintes do que três séculos de escravidão.

O trabalho de Maria Lúcia é importante porque desfaz o mito de que nossas disparidades étnicas na distribuição entre as classes se devem unicamente a entraves históricos de cunho social, quando pensados no período republicano. Entraves sociais explicam o motivo de hoje poucos terem tanto e tantos, tão pouco, mas não se bastam para entendermos a ínfima representatividade negra entre os "poucos". A peça adicionada por Maria Lúcia a nosso quebra-cabeça histórico-cultural torna este mosaico um pouco mais coerente, além de auxiliar o trabalho de quem pensa as contramedidas que corrigirão esses desequilíbrios, incluindo ações afirmativas. A escassez de uma elite negra no Brasil é um tremendo instrumento de reforço às associações psicológicas que tornam o cidadão mais bem intencionado um sujeito racista, como também torna racista a própria vítima. Vale lembrar que o cerne deste mal está mais no código do que na pessoa, cujo recurso contra um sistema pernicioso é rejeitá-lo, coisa difícil de fazer, pois os códigos também são extensões dos indivíduos e os conectam entre si e com seu habitat.

Maria Lúcia Rodrigues é professora da Universidade Federal do Mato Grosso e as 54 fotografias que reuniu sobre a participação do negro na educação da primeira metade do século XX se encontram no livro "A cor da Escola - Imagens da primeira república", como também foram tema de uma reportagem recente realizada pelo jornal "O Globo".


Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Ele escreve para a Revista Sina e o blog "notícias do front 3".

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