domingo, 17 de maio de 2009

Quando os certos estão errados

Diz a lenda que um feiticeiro, no intuito de destruir um reino, contaminou a água da população com uma poção que deixava louco quem a ingerisse. Naturalmente, os habitantes enlouqueceram, mas o rei e sua família não, pois tinham um poço particular em seu castelo. Tomado pela loucura, o povo passou a ver os decretos e ações do monarca como atos insanos, e decidiu depô-lo, usando a policia e o exército – que haviam tomado a mesma água contaminada – para isso. O rei não teve escolha e renunciaria, não fosse sua esposa a convencê-lo de que ambos deveriam também beber a água da loucura. O rei assentiu e assim fez, passando a dizer coisas sem sentido, como o resto dos súditos, que então o consideraram sábio e desistiram de depô-lo.

Essa parábola sobre a perda da sanidade tem um lado mais sutil. É a alegoria de um fenômeno social, onde renunciamos a razão pela aceitação. É o “raio-x” dos consensos, do inconsciente coletivo dissociado da realidade mas insistente em suas convicções; dos absurdos tornados normais e, em última instância, regras. Na raiz do processo, a busca pela "boa troca", a luta interna entre consciência e instinto tribal inerente a qualquer um de nós desde berço. No pólo oposto, a cegueira, a negação da consciência e a imposição dessa negação até que ela se confunda com a própria consciência, ou com a inconsciência, ou ambas. No reino da burrice, razão vira veneno e os razoáveis, parias.

Dia desses, a caminho do barbeiro, estou prestes a atravessar a rua quando sou quase atropelado por uma bicicleta na calçada, e o ciclista fica possesso porque não percebi sua aproximação, ou seja, não olhei para os dois lados antes de me manter na via de pedestres, visto que na atual conjuntura do bairro onde vivo, um ciclista têm prioridade sobre andantes em qualquer lugar, como também tem um motoqueiro, igualmente indignado quando transeuntes não lhes cedem espaço para trafegar pela calçada ou na passarela, onde motos nem deveriam circular. Mas as regras do jeitinho, de tão toleradas, viram regras de fato contra as regras da lei. Infratores se tornam vítimas e vice-versa, e, pior, com a condescendência das maiorias. Tivesse eu levantado a voz contra o ciclista, talvez acabasse como o pai de família espancado com uma barra de ferro por reclamar do motorista que quase o atropelou avançando um sinal vermelho, ou como a mulher cremada viva ao denunciar um ponto ilegal de motoristas de Kombi. Há, claro, nesses casos, além da coerção invisível de costumes que fazem o errado se achar certo no íntimo e ser amparado pelo consenso que nos faz pensar dez vezes (ou nem cogitar pensar) antes de conclamar o estado de direito teórico, a coerção pelo medo, extensão da anterior – o perigo de, quebrado o pacto invisível dos jeitinhos, a política de boa vizinhança entre cidadãos abrir espaço àquilo que está por trás: a lei do mais forte e do "você sabe com quem está falando", reais alicerces dos direitos civis que usam os direitos do papel como meio de legitimação.

É costume meu, ao embarcar numa das vans que trafegam pelo Rio de Janeiro, procurar o cinto de segurança dos bancos traseiros, cintos fabricados e adquiridos junto ao veículo pelo dono, e considerados vitais à integridade física do passageiro. Num país desenvolvido, colocá-los, na frente ou atrás, é uma extensão natural de se embarcar num carro. Aqui, se você pede ou procura as peças nos assentos posteriores de uma van, é visto como alienígena por motorista e demais ocupantes.

– Ah, cinto? Procura aí. Ninguém usa esse troço não, eu enrolo aí atrás (ou prendo com fita adesiva embaixo dos bancos, ou já os arranquei fora há muito tempo) porque o passageiro se incomoda com eles. Ninguém usa. Fica tranqüilo, parceiro. Ninguém aqui vai bater não.

Ouse fazer queixa e será, no mínimo, expulso do veículo, coisa que um dia me ocorreu sem que ao menos eu reclamasse de algo – o máximo que fiz foi perguntar pelos cintos, e o motorista se ofendeu "cheio de razão", mandando-me sair, afinal, "não mostrei confiança em sua habilidade no volante". Se o taxista aposta corrida na via expressa, não reclame, ou estará atentando contra a qualidade e a masculinidade do profissional, algo tão grave quanto matar uma vaca na Índia. O que são luxos como segurança diante de prerrogativas tão mais sérias?

Pense duas vezes também ao se indignar com o toco de cigarro aceso jogado pelo frentista no chão do posto de gasolina, ou quando Zezinho, amigo de João, "tomar a frente dele" na fila onde você mofou tanto tempo. Ambos conclamarão o direito dos costumes ante o óbvio fato de que estão errados, e irão às últimas conseqüências em suas convicções. No fim, poderá ter sido melhor fazer como os outros, calando-se, consentindo, ou, em última instância, tomando para si o ponto de vista do infrator, bebendo a água dos loucos para ter uma vida sã.

É evidente que essa questão vai além dos tipos de exemplo que dei. Estende-se a tudo e explica em grande parte porque erramos tanto apesar de avanços e lições humanitárias da história. Incoerências civis, sociais, políticas e ambientais inadmissíveis nos deixam perplexos por fora, embora comumente compactuemos "por dentro" com os mecanismos que as viabilizam; sem saber, sem querer ou sem querer saber, apenas seguindo o fluxo.

1 Comentários:

Às 17 de Maio de 2009 17:17 , Blogger Lédio Milanez disse...

Muito boa a tua areflexão.
É necessário, muitas vezes, caminhar na contra-mão da história.

 

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