Outro dia, no carro ao lado do meu, uma mulher falava sozinha em voz alta. Ela parecia estar revivendo a discussão que tivera com alguém. Ainda que imaginando falar com outra pessoa, ela se revia e, portanto, falava consigo mesma.Também falo comigo em pensamento o tempo todo, como se eu fosse duas pessoas. Quando estou sozinha, torno-me interlocutora de mim mesma. Segundo Platão, quando os homens pensam, tornam-se "dois em um" e, assim duplicados, realizam o "diálogo sem som do pensamento". Ao pensar, nós nos dividimos e somos um companheiro e uma testemunha de nós mesmos. Voltamos a ser "um só" quando alguém chama a nossa atenção e passamos a falar com ele. Ou quando alguma coisa acontece e temos de nos ocupar com ela -enfim, quando temos de parar de pensar para agir.
Mas, enquanto ninguém fala conosco, nem precisamos prestar atenção ao que fazemos, somos nós mesmos nosso principal interlocutor. Melhor, nossa principal companhia -uma companhia que sempre vê e julga o que fazemos, que sempre nos testemunha. E mais: uma companhia da qual jamais poderemos nos desfazer enquanto estivermos vivos -de fato, a única companhia cujas opiniões e julgamentos sobre nós mesmos nos influenciam e valem mais que tudo.Nós nos iludimos quando acreditamos que nos importamos mais com as críticas dos outros do que com as nossas próprias. Para que a opinião alheia nos afete, é preciso, primeiro, que concordemos com ela. Porém o que talvez nos leve a acreditar que nos importamos mais com o juízo dos outros sobre nós seja o fato de as opiniões alheias fazerem barulho e serem marcadas por caras e bocas. As opiniões alheias aparecem, enquanto as nossas próprias são silenciosas, são presenças discretas.
E são tantos os conceitos que tecemos a nosso próprio respeito! Julgamo-nos fortes ou fracos, inteligentes, bonitos ou feios e ignorantes, bons ou maus, indiferentes, preguiçosos, batalhadores, teimosos, cheios de possibilidades ou destinados ao fracasso.
"Nós nos iludimos quando acreditamos que nos importamos mais com as críticas dos outros do que com as nossas próprias. Para que a opinião alheia nos afete, é preciso, primeiro, que concordemos com ela"
Formamos essas opiniões pensando no que fizemos e dissemos no passado. É assim que vamos acumulando tudo aquilo de que nos orgulhamos tanto quanto aquilo de que nos arrependemos e envergonhamos. São exatamente essas opiniões a nosso próprio respeito as que contam de verdade. Elas se tornam critérios por meio dos quais vigiamos nossas ações no presente e projetamos nossos comportamentos futuros.
Os juízos que fazemos de nós mesmos formam imagens poderosas que impregnam nossa consciência. Normalmente, lançamos essa auto-imagem lá para adiante. São imagens de como gostaríamos de ser ou daquilo que esperamos de nós mesmos. Firmamos um compromisso com elas, que também é silencioso e, desde o presente, mesmo sem perceber, nós nos movemos incansavelmente na expectativa de sua realização. Elas se tornam as promessas que nós nos fazemos.Todavia nem sempre podemos cumprir essas promessas -especialmente quando nossa auto-imagem é projetada sobre um profundo desacordo com nossa realidade e com nossas possibilidades mais peculiares, quando ela se apóia no que julgamos ser o correto e o melhor, mas é alienada de nossa vida e singularidade. Sobra-nos, então, o sentimento de fracasso e de infelicidade. Michael Jackson é um exemplo extremo de indivíduo cuja auto-imagem é estrangeira de si mesma e que se impôs uma promessa inalcançável: um negro que faz de tudo para ser branco para ser quem ele nunca foi nem nunca poderá ser. Ele não se projeta uma imagem possível e singular, mas persegue uma fantasia.Fazemos o mesmo, ainda que sem querer. E nos maldizemos e nos punimos pelas promessas não cumpridas. Julgamo-nos incapazes e incompetentes. Sentimo-nos envergonhados. Aprisionamo-nos no círculo sem saída da culpa e da autocondenação.
Mas ninguém está fadado a permanecer praticando o mal que descobre fazer para si mesmo pensando ter agido corretamente. Perseguimos a realização de fantasias que nos alienam de nós mesmos quando nos conhecemos mal, quando nos ouvimos e interpretamos mal. Nossa condição humana, entretanto, está dotada de um talento especial que nos desamarra de nossos erros e equívocos a qualquer tempo. E para o qual é sempre tempo. Esse talento está reconhecido nas palavras de Jesus de Nazaré: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem".
Perdoando-nos por nos fazer promessas insensatas, podemos nos reconciliar com nós mesmos e estancar o "ruminoso" remorso e a incessante crítica que nos fazemos quando ficamos a sós conosco, expostos a nós mesmos e ao nosso próprio testemunho. Porém o perdão que podemos nos oferecer tem uma condição essencial: que saibamos quem somos e quem só nós mesmos podemos ser. Só apoiadas nesse saber é que as promessas que nos fazemos não nos lançarão outra vez no inferno do desacordo com nós mesmos.
É exatamente o que o oráculo de Delfos diz a Sócrates quando este vai consultá-lo sobre seu destino: "Conhece-te a ti mesmo".
Dulce Critelli é professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
1 Comentários:
Profundo. Questionador.
Sem dúvida o que mais nos infuencia são os juízos que de nós mesmos fazemos.
Nos libertar de conceitos paralizantes,eis o grande desafio de cada um de nós.
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