A questão socrática - Parte 1: Por que Sócrates nada escreveu?
Uma outra razão pela qual Sócrates nada escreve está relacionada à essência do socratismo, que não é a de uma filosofia doutrinária. A frase "só sei que nada sei", cuja autoria é atribuída à Sócrates, aponta uma posição filosófica muito mais focada em questionar do que em fornecer respostas. Alguém que nada sabe tem muito mais o que perguntar do que responder. Entretanto, o Oráculo de Delfos (templo no qual os gregos faziam perguntas aos deuses) indica Sócrates como o mais sábio dos homens, logo, mais sábio do que homens que julgam-se sábios. Mas como um homem que diz nada saber pode ser mais sábio do que um outro que afirma saber alguma coisa? Sócrates argumenta então que tanto ele quanto os homens que afirmam saber algo são ignorantes. Contudo, o filósofo ateniense se diferenciaria por saber que não sabe, enquanto aqueles que se dizem sábios sem de fato o serem não sabem que não sabem. A sabedoria socrática consiste, portanto, na consciência de não saber. É neste sentido que Sócrates se vê imbuído de uma missão, uma missão de cunho divino, pois enviada pelo Oráculo: a de comunicar a qualquer indivíduo que equivocadamente se julge sábio a sua ignorância. Sócrates vê a si mesmo como alguém que faz uma ponte entre os deuses e os homens. Os deuses seriam os verdadeiros sábios, e os homens seriam ignorantes que julgam-se sábios. Sócrates, num ponto intermediário, seria um ignorante consciente da própria ignorância, logo, alguém dotado do dever moral de informar os demais homens que também eles são ignorantes. Trata-se de uma filosofia negativa, e Sócrates não vai além dela; não afirma nenhuma verdade, mas procura atuar como um "parteiro de almas", como um "maiêutico", isto é, como alguém que auxilia os homens a "darem a luz" à verdade, verdade que o próprio filósofo de Atenas nega conhecer. Portanto, Sócrates não está interessado em elaborar nenhuma doutrina e tampouco se vê apto a ensinar algo para alguém, o que faz sem sentido qualquer intenção de filosofar escrevendo livros.
Rafael Issa é graduando em Filosofia na USP e bacharel em jornalismo pela UMESP.



5 Comentários:
Oi!
Eu gostei muito do texto. Ficou bem didático e, pelo que percebo, este era o intuito. :)
Houve boa compreensão de minha parte hehehhee. :D
Beijos. :)
Assim como Sócrates (469-399), Sidarta Gautama (563-483) e Jesus Cristo (6 a.C.-27), também, não deixaram suas doutrinas codificadas. Elas foram escritas, posteriormente, por seus discípulos. Será uma simples coincidência ou podemos buscar uma explicação?
Bela inauguração!!!
Gostei do tom simples e despretensioso do texto, como quem fala de Sócrates por falar, assim, sem nenhum paralelo com o blog, apenas como assunto... haha.
Bjo.
Parabéns pelo Dia dos Professores!
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