!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN"> Poeira de Idéias


 


Sobre mim: meu nome é Rafael Issa. Tenho 28 anos, nasci na cidade de São Paulo, onde vivo. Sou professor de filosofia e pretendo usar esse blog com fins didáticos. Atualmente faço graduação em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Sou bacharel em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A questão socrática - Parte 1: Por que Sócrates nada escreveu?

A maior dificuldade imposta àqueles que pretendem estudar a filosofia de Sócrates (470 ou 469–399 a.C.) se deve ao fato dele não ter deixado nada escrito. Ao invés de escrever livros, este homem que nasceu, viveu e morreu em Atenas preferiu exercer a filosofia dialogando com seus concidadãos, nos espaços públicos desta cidade grega. Sócrates era adepto do método dialético, em que uma tese inicial é submetida à contraposição de uma antítese (crítica da tese inicial) gerando uma síntese, ou seja, uma nova tese. Esta nova tese, fruto de debate, seria muito mais confiável do que aquela tese inicial. Seguindo esta linha de raciocínio, Sócrates recusa a makrologia (utilização extensa do logos, da palavra), típica das obras literárias, em prol da brakhylogia (utilização breve do logos, da palavra) que caracteriza a dialética, o diálogo, o discurso breve de perguntas e respostas. Muito provavelmente a idéia de escrever não seduzia Sócrates também porque o texto literário é estático; isto é, teses escritas não possuem o mesmo poder de renovação e não são imediatamente confrontadas com teses opostas (o que no socratismo é essencial para se verificar a veracidade ou falsidade de algo) como hipóteses levantadas em um diálogo oral, numa interação direta com um interlocutor.

Uma outra razão pela qual Sócrates nada escreve está relacionada à essência do socratismo, que não é a de uma filosofia doutrinária. A frase "só sei que nada sei", cuja autoria é atribuída à Sócrates, aponta uma posição filosófica muito mais focada em questionar do que em fornecer respostas. Alguém que nada sabe tem muito mais o que perguntar do que responder. Entretanto, o Oráculo de Delfos (templo no qual os gregos faziam perguntas aos deuses) indica Sócrates como o mais sábio dos homens, logo, mais sábio do que homens que julgam-se sábios. Mas como um homem que diz nada saber pode ser mais sábio do que um outro que afirma saber alguma coisa? Sócrates argumenta então que tanto ele quanto os homens que afirmam saber algo são ignorantes. Contudo, o filósofo ateniense se diferenciaria por saber que não sabe, enquanto aqueles que se dizem sábios sem de fato o serem não sabem que não sabem. A sabedoria socrática consiste, portanto, na consciência de não saber. É neste sentido que Sócrates se vê imbuído de uma missão, uma missão de cunho divino, pois enviada pelo Oráculo: a de comunicar a qualquer indivíduo que equivocadamente se julge sábio a sua ignorância. Sócrates vê a si mesmo como alguém que faz uma ponte entre os deuses e os homens. Os deuses seriam os verdadeiros sábios, e os homens seriam ignorantes que julgam-se sábios. Sócrates, num ponto intermediário, seria um ignorante consciente da própria ignorância, logo, alguém dotado do dever moral de informar os demais homens que também eles são ignorantes. Trata-se de uma filosofia negativa, e Sócrates não vai além dela; não afirma nenhuma verdade, mas procura atuar como um "parteiro de almas", como um "maiêutico", isto é, como alguém que auxilia os homens a "darem a luz" à verdade, verdade que o próprio filósofo de Atenas nega conhecer. Portanto, Sócrates não está interessado em elaborar nenhuma doutrina e tampouco se vê apto a ensinar algo para alguém, o que faz sem sentido qualquer intenção de filosofar escrevendo livros.

Rafael Issa é graduando em Filosofia na USP e bacharel em jornalismo pela UMESP.

5 Comentários:

Às 20 de setembro de 2010 12:09 , Blogger Nihila disse...

Oi!

Eu gostei muito do texto. Ficou bem didático e, pelo que percebo, este era o intuito. :)

Houve boa compreensão de minha parte hehehhee. :D

Beijos. :)

 
Às 22 de setembro de 2010 16:16 , Anonymous Cristina disse...

Assim como Sócrates (469-399), Sidarta Gautama (563-483) e Jesus Cristo (6 a.C.-27), também, não deixaram suas doutrinas codificadas. Elas foram escritas, posteriormente, por seus discípulos. Será uma simples coincidência ou podemos buscar uma explicação?

 
Às 25 de setembro de 2010 13:33 , Anonymous  disse...

Bela inauguração!!!
Gostei do tom simples e despretensioso do texto, como quem fala de Sócrates por falar, assim, sem nenhum paralelo com o blog, apenas como assunto... haha.
Bjo.

 
Às 15 de outubro de 2010 13:19 , Anonymous Cristina disse...

Parabéns pelo Dia dos Professores!

 
Às 5 de agosto de 2011 09:50 , Anonymous Anônimo disse...

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